O TUDO EM TODOS
- O Granjeiro

- 4 de mai. de 2018
- 7 min de leitura
“E criou Elohim o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou”
Gênesis 1:27

Oel Ngati Kameie. Eu vejo você. Em 2009, a obra Avatar, de James Cameron, pelo menos por alguns instantes nos fez refletir na importância do ver. O conceito vago e aparentemente banal por trás do “eu vejo você” é tão cristão quanto parece, e tão esquecido quanto não deveria ser. Todo o plano da redenção, o estratagema universal do resgate do ser humano gira ao redor da restauração do homem à imagem e semelhança de Deus, o papel original para o qual foi criado. No que consiste isso? Temos um Deus que, além de ciumento (Ex 20:5) é narcisista? Que criou um universo pra sua própria glória e pra se auto-reconhecer nas suas criaturas? Seria mais verossímil entender uma outra realidade: Ele quer que NÓS nos auto-reconheçamos uns nos outros…
Muita gente, em contrapartida, concorda piamente com a ideia levantada por Peter Weir em “O Show de Truman” (1998) no que se refere à psicose narcísica que um Deus como o cristão teria em ter se dado o trabalho de povoar a Terra com seres semelhantes à Ele, obrigá-los a se alienarem propositalmente através da fé sem questionamento e a renderem louvor pela simples realidade de sua existência, privando os seres de liberdade. A cena mais comemorada do filme é quando o protagonista Truman (em inglês, tem pronúncia idêntica a “verdadeiro homem) conseguindo se libertar do diretor do programa na qual sua vida era baseada, Christof (lembra o nome de Cristo em inglês), que o deu uma vida cheia de confortos, mas totalmente baseada numa fantasia mentirosa. Os paralelos com a fuga do homem do jardim do Éden são incríveis.
Quem assim enxerga Deus, no entanto, confunde o mais perfeito paradigma do cristianismo, justamente aquilo que o faz ser tão belo. A única possibilidade de liberdade absoluta reside justamente dAquele de onde emana a única possibilidade real de vida. A vida desconectada da fonte de Vida é uma prisão dentro de nós mesmos e nossos vícios. Quando se enxerga dessa ótica, o suposto “narcisismo” de Deus em nos criar a sua imagem e semelhança começa a ser enxergado não só como uma honra inconcebível, mas como uma ferramenta essencial para a existência da vida na Terra e respeito mútuo: o autorreconhecimento entre nós e nosso próximo.
Temos sido mortos a cada dia por uma sociedade que nos ensina a não definir nada, nem a nós. “Quando você se define, você se limita.” “Viva quem você é!” “Não deixe ninguém dizer quem você é!”. Axiomas tão lindos quanto tóxicos. Nós temos que precisamente saber quem somos desde muito jovens. É isso mesmo que você leu! Isso vai me limitar? CLARO Que VAI, PRECISA!
Nossa definição sobre nós mesmos é como uma membrana celular que mantém o citoplasma dentro de onde ele deve estar. Se não nos protegemos dos ventos de mudança da sociedade, que impõe suas verdades na medida de seus interesses, seremos eternos fantoches. O príncipe deste mundo é o verdadeiro Christof. Ele quer nos enfiar numa bolha, e dar-nos a sensação falsa de liberdade, enquanto ele move as cordas a sacudir os fantoches que somos.
A definição de quem somos não vem de nós. Ela é esotérica. A princípio, ela vem do nosso dono: YHWH. Ele nos chamou de seus filhos, sua criação, desenhados para sua glória. PONTO. Agora, dentro das complexidades da vida, há outros milhões de pequeninos detalhes a serem vistos: “sou chato? Sou calmo? Sou nervoso? Sou honesto? Sou humilde?”. Isso também faz parte de quem nós somos. E muitas vezes a Palavra não vai nos dar detalhes sobe isso em nossa vida pessoal. Assim, quem identificará nossos traços de caráter e personalidade? Isso mesmo, os outros. Não é o mais confortável de se ouvir, mas é a real. E não é qualquer “outros”. É “os outros que se importam com você ”. A opinião de mais ninguém é tão relevante, nem a sua. Ouvir um pai, uma mãe, um amigo, um marido dizer: “Tu é desonesto, brother. Melhora!” E continuar se achando honesto, porque “ninguém pode dizer quem você é” soa e é a mais sublime estupidez.
O inter-reconhecimento entre os homens como filhos de Deus só pode, outrossim, verdadeiramente funcionar se a princípio já reconhecemos a Deus como o grande merecedor de glória. Se de alguma forma, Deus é o único Digno do Universo, pelo seu poder criador e pela sua própria essencialidade perfeita, e eu, Alef Lessa, o pior dos pecadores, fui feito à sua imagem e semelhança e tenho o sopro de vida (Ruach) dentro de mim, uma pequena parte dessa glória está em mim. Não para que eu seja glorificado, mas muito pelo contrário. Para me fazer sabedor da minha condição indigna, de destruidor do templo original dado por Deus que é meu corpo, mas ao mesmo tempo da capacidade remodeladora que o Engenheiro tem, e da minha reconexão à Ele que vai restaurar minha capacidade e beleza originais. E quem mais está nessa condição? Acertou quem disse: TODO MUNDO. Eu também sou você, que somos um, assim como Deus é com o filho (João 17).
Assim, devemos amar nosso próximo como a nós mesmos. Quer dizer, munidos da nossa autoestima de filhos de Deus, conseguimos identificar no outro uma semelhança (daí o “próximo”), e entendemos ser ele digno do mesmo tratamento que eu, como filho de Deus, entendo ser digno para mim mesmo. Mesmo que suas atitudes sejam indignas, passamos tudo isso por alto, porque nós também um dia fomos resgatados por alguém enquanto estávamos em pecado. E daí, você também compreende a beleza do serviço e do porquê Deus não manda uma legião de anjos pra revelar a verdade ao mundo e pronto. Por que é IMPOSSÍVEL ter adquirido a verdade sem a ajuda de um terceiro. Se você foi à procura de uma igreja, aquela igreja foi mantida por pessoas pecadoras. Se você achou um livro jogado na rua, que é a coisa mais impessoal possível, saiba que ele foi impresso por uma pessoa que se importa com a salvação de outro alguém.
Bonitinho né? E as implicações que isso pode causar? São terríveis! Significa que você será inevitavelmente obrigado a escolher sua profissão tendo em vista não só a sua satisfação pessoal, mas no que sua comunidade realmente precisa. Que se alguém cometeu um erro ou crime, é tão carente de misericórdia quanto você com seus erros. Que o cracudo merece o mesmo tratamento que você quando dá seus tapinha na pantera de vez em quando e ninguém vê. Que o adúltero merece o mesmo tratamento que você quando recorre a sua pornografia. São todos pecadores e movidos pelos mesmos impulsos animais. Significa dar a outra face. E significa que quem não está nem aí pra como você pensa, e que te mataria na primeira oportunidade que tivesse, deve ser respeitado. Nós somos muito muito muito muito mais fortes do que pensamos. Em Deus, nós somos. Pra não temer a morte que advém do serviço, do sofrimento que advém do amor, do dano que vem do respeito não correspondido.
“Cristão perdoa, mas não é bobo não!” Sim... é um pouco bobo sim. É bem bobo. Você ama, se abre, dá, pensa. E pode não ter nada em troca. E daí? Se esperou algo em troca, já não é cristão. Quando você ama de verdade, seus olhos viram um radar de pessoas que merecem seus mais profundos esforços, e suas mãos viram uma máquina de ajudar quem não merece.
Amar o outro não é opcional, é obrigatório. Eu devo SIM, sair correndo igual um maluco no meio da rua pra devolver a carteira pra um velho que eu nunca vi e nem irá me agradecer. Eu devo SIM segurar um cara que tá batendo no outro no meio da rua, apanhar muito mais que ele e ir pro UTI. Eu devo SIM pular na frente de um carro que está prestes a esmagar uma criança que no futuro será um traficante e morrerá com 18 anos. E pode ser, pode até ser, que o cara vai ficar tão grato que vai me dar todo dinheiro da carteira. Que eu vença os opressores, e seja melhor amigo daquele de quem defendi pra sempre. E que a criança que eu salvei dê sua vida por mim. Mas pode não ser. E você não fica esperando o que pode ser. Você FAZ SER. Você se torna a mudança que espera no outro, porque você ama o outro como a você mesmo. E querendo ou não, o galardão virá invariavelmente.
Essa é a mensagem mais libertadora da vida. E você sentiu isso, com esse reboliço que passou no seu coração, que você sentiu ou reprimiu. Por que temos tanto medo de nos doarmos?
Numa sociedade onde os estímulos se confundem com nossa própria essência, a presença das pessoas já não é mais suficiente. E, mesmo que seja, é por pouco tempo. Essa sociedade que precisa viajar pra se encontrar, que precisa da arte pra dizer quem é, que precisa de anos pra se tornar adulta, pra decidir uma faculdade, pra fazer descobrir o que quer, e depois anos pra fazer o que quer, sustentada por um moço honesto chamado “trabalho dos outros”. Que esperneia se não faz o que quer. E que julga Deus como algum tipo de coisa submetida aos nossos planos falhos.
E Deus vai nos dar força pra isso. Pra sentir tanto asco por esse estilo de vida egoísta e tanto amor pelos egoístas. Ele não só oferece o amor, ELE É O PRÓPRIO AMOR. Ele é o alfa e o ômega de todos os relacionamentos. É Ele quem diz que se você faz o bem ou mal a alguém, está fazendo a Ele. É Ele que mantém as pessoas boas ao seu redor, pra te dar força, e as más, pra testar seu caráter. É Ele que recompensará todas os obrigados merecidos e não dados. Pque ter medo de se entregar e ser injustiçado, se a entrega tem como fim Aquele que é o único justo? Se Ele, o dono da máquina, o Steve Jobs, o Henry Ford, o Santos Dummont colocou em seu coração o desejo de não morrer sozinho, por que Ele vai te deixar sozinho? E se você morrer antes, por que temer a morte, se Ele é a própria Vida? Que Ele aumente a nossa fé. NEle, e nos sete bilhões de pedaços que Ele deixou aqui. ELE É TUDO EM TODOS.




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