O dia que Deus pulou
- O Granjeiro

- 6 de abr. de 2018
- 5 min de leitura

O recreio é sempre o momento mais aguardado num dia de aula normal de um garoto no fundamental. Brincar de pique-pega, esconde-esconde e amarelinha era incrível, mas a maior das glórias de infância para mim era pular corda.
A princípio, pular parece uma atitude muito “irreverente” ou no mínimo inadequada para Deus. Confesso que na minha cabeça ele sempre estava sentadinho, lá no trono cercado de nuvens, imóvel por toda a eternidade (a... mém?). Imaginar um Deus pulando corda, ou pulando de alegria talvez é impensável, certo? Mas Deus surpreende. Ele me surpreendeu – sempre faz isso (e que assim continue, amém). Me lembro como hoje, foi mais o menos assim:
Eis que se aproximava a tradicional páscoa. E uma amiga me pediu para fazer uma reflexão bíblica em um culto ao ar livre – com direito a lençol na grama e pés descalços (#fikadika) – e adivinhem o tema... exato. No entanto, por ser publicitário, duas coisas me amargam a boca: limão e clichês. Então, me propus a evitar conclusões do tipo: (1) “páscoa não é chocolate” – afirmação que os supermercados poderiam rotular como conspiratória; e (2) “páscoa é Jesus” – não que não concordo, mas é que rima com cruz e luz. E foi aí que minha pascoa começou a ficar doce, quando parti buscando o um real sentido para a páscoa. E comecei do começo, na primeira de todas.
“E YHWH disse a Moisés e Arão na terra do Egito...” (Ex. 12.1)
Abri a bíblia em Êxodo 12 e a situação não podia ser mais crítica. Nada de coelhinhos por lá. O contexto...? Já fazia uns 400 anos (isso mesmo, 4 séculos) que os hebreus estavam no Egito, oprimidos e escravos nas mãos do Faraó. E então Deus vem tirar satisfação. O Faraó, nada simpático, ignora 9 advertências Divinas – nem eu levei tantas nos tempos idos de recreio (será?) E então YHWH (a.k.a. O SENHOR) decide bater o martelo: JUÍZO.
Pausa dramática com os ecos da palavra juízo
izo... izo...izo... uízo... uízo... uízo...
... O Juízo Divino consistia na morte dos primogênitos do Egito. TODOS os primogênitos em TODO o Egito, “tanto das pessoas como dos animais”. Essa sentença é bem categórica. Mas nós sabemos, que não no final Deus teve pena dos Israelitas, porque eles eram seu povo ou eram bonzinhos, e não passou por eles... certo? Hmmm... não exatamente.
Acontece que esse capitulo é cheio de repetições. E uma que me chamou a atenção foi a do verbo passar. No v. 12 Deus diz “naquela noite, passarei pela terra do Egito, e matarei na terra do Egito”. Mas no verso seguinte Ele repete com uma mudança “quando ver o sangue, passarei por vocês, e não haverá entre vocês praga destruidora”. “Porque Deus fala que vai passar? – me perguntei. Pois aparentemente, posso ler as duas frases sem o sublinhado e elas vão fazer total sentido (leia de novo pra ver...). Então praquê falar que vai passar? Charme...?
Pegue seu chocolate pois aqui a coisa começa a ficar doce. Algumas traduções da bíblia não fazem distinção entre o verbo “passar” nas duas frases. Mas em hebraico eles diferem. E sua diferença é crucial para entender (1) o que Deus fez lá trás e (2) porque guardamos o feriado. O primeiro passar (עָבַר) é mais amplo, como passar/atravessar um rio (Gn 31:21) ou cruzar a fronteira de um país (Nm 20:17). O segundo passar (פָּסַח) – que inclusive dá nome a páscoa – tem um significado mais específico: passar por cima, ou, literalmente: PULAR. E sim, eu pascoei da cadeira quando vi isso. Havia acabado de ler na bíblia que Deus pularia, palavras dEle. E ele pulou mesmo.
Ter sua vez pulada pode ser ruim, ou bom. Nesse caso, foi muito bom para os Israelitas, certo? Mas pular um réu na hora do julgamento... sei não. Isso é legal?* Não parece justo, parece? Imagine um Juiz que está julgando vários políticos acusados de corrupção. Após sentenciar um caso, aguarda a vez do próximo réu. “Muma da Simva” – lê o escrivão. Assim que ouve o nome, o juiz brada – absolvido – sem pedir conferir qualquer prova ou depoimento!
Aparentemente é essa a visão que temos da ação Divina. Ele passa pelos egípcios, entra e executa. Já com os israelitas é diferente, Ele pula, e ninguém morre. Certo? Certo. Err... quer dizer então que Deus foi injusto? Parcial!? Como faz? Um Israelita talvez negaria isso, afirmando: “mas nós somos o povo da aliança, somos especiais perante todas as nações”, ou até mesmo “é justo que YHWH faça isso pois os Egípcios são maus e merecem punição pela opressão de séculos aos nossos filhos”. Mas não existe margem para tal discussão, por causa do sinal.
“O sangue será um sinal para indicar as casas em que vocês estiverem; quando eu vir o sangue, passarei adiante” (Ex. 12:13)”
A bíblia deixa bem claro o porque de Deus ter pulado. “O sangue” é a razão da “não-morte” no juízo Divino. O que distingue o “Israelita” de um “Egípcio” não é a raça; não é o DNA; não é ser da linhagem de Abraão; nem é ter feito algo específico em algum dos 400 anos que precedem a história. A distinção é que um tem o sangue nos umbrais, e o outro não. A morte vem para todos, mas não para aqueles que tem o cordeiro como substituto. O ato de misericórdia de Deus para com o povo está na ausência de misericórdia do povo para com o pobre cordeiro. Deus não faz “vista grossas” com o réu – Israel nesse caso – pois o sangue nos umbrais da porta cumpre a sentença destinada ao primogênito da terra.
Naquela noite o “anjo da morte” surpreende os egípcios. Mas ele é surpreendido pela sua própria presença na casa onde o cordeiro foi sacrificado. Na hora de julgar, Deus não pula por irresponsabilidade nem parcialidade. Ele pula a sentença pois ela já foi cumprida. E a fiança quem paga, é Ele. Pois bem, essa foi a história que encontrei quando decidi sair da amargura do clichê. Confesso que quando a compartilhei ao ar livre pude diferenciar os dois verbos pulando de verdade. Foi bem divertido. Mas para resumir, a páscoa é tempo de se lembrar do juízo de Deus que VAI chegar, não o do Egito, mas dessa vez da terra toda. Até lá (1) se preocupe em ter as portas manchadas com o sangue dEle e (2) viva. Sempre lembrando que doce mesmo, é a vida daquele que tem um Deus que pula.
se você pegou esse trocadilho, parabéns...** **voltar agora para entender o trocadilho não é legal.*** ***chega por hoje




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