O DEUS TOTÓ — um breve manual de como domesticar seu deus
- O Granjeiro

- 15 de jun. de 2018
- 5 min de leitura
“Onde você estava quando lancei os alicerces da terra? Responda-me, se é que você sabe tanto. Quem marcou os limites das suas dimensões? Talvez você saiba!”
YHWH

O deus-totoísmo (do grego teototós) já é um ramo muito trabalhado do mercado, quase totalmente manjado, há alguns milhares de anos. No entanto, há espaço ainda para novos empreendores nesse mercado ainda crescente, mas em constante mudança. Talvez a tentativa da criação de um novo grande grupo comercial não seja mais tendência (você está atrasado pelo menos mil anos hahaha), pois as grandes oligarquias dominantes como o cristianismo, o islamismo e o hinduísmo já abocanharam praticamente todo o mercado de potenciais consumidores. Mas dentro desses ramos existe a possibilidade da abertura de franquias, chamadas “denominações”, vulgo “igrejas”, para as quais as possibilidades doutrinárias são infinitas. A vedação para sua criação é zero (principalmente no cristianismo), o público é literalmente fiel e gozam inclusive de imunidade tributária em 70% dos países do mundo, trabalhando com número de funcionários reduzidíssimo, publicidade péssima em escala industrial e nenhuma possibilidade de fechamento. Para isso, é necessário domesticar o respectivo deus (uma espécie de CEO imaginário) do grupo econômico, mas aqui vão dicas fáceis e universais de como fazer isso:
I. Atribua tudo o que acontece ao deus-totó: se estiver chovendo, é porque o deus assim o quis. Se estiver nevando, assim ele quis. E quis com o propósito claro de abençoar especificamente seu único povo. Se alguém morrer, é porque deus quis. Se alguém vive, é porque deus quis. Se o quadro em casa caiu enquanto você estava conversando, peça o deus pra amarrar, porque com certeza isso tem alguma explicação espiritual.
II. Dê inimigos ao deus-totó: Se o deus não tiver inimigos, ele não vai ficar muito verossímil. E é muito conveniente sempre atribuir qualquer ação contrária aos interesses da empresa à ação do inimigo. Pode ser Voldemort, Sauron, Tash, Vegeta, mas precisa existir. E ele deve ser tão poderoso quanto o deus, ou só um pouco menos, para que as pessoas tenham medo.
III. Inculte o medo na cabeça de todos… até medo contra o deus-totó: elas devem temer o inimigo. Sim, faça ele presente nas reuniões com os consumidores, lembre dele, atribua coisas a ele o tempo inteiro. Ele entra no corpo das pessoas. Ele está nos filmes da Disney e no carnaval, na maconha e entre qualquer opinião divergente na reunião. Mas elas jamais devem temê-lo menos que o próprio deus-totó. O deus-totó parece fofinho, mas ele pune, observa, julga, mata, causa acidentes. Prepara um mundo de dor eterna cruel para quem não faz sua vontade. E aí entra o outro tópico:
IV. O deus-totó tem muita vontade, mas é você quem dita: o investidor está livre para criar a doutrina que quiser, de preferência mais complexa e cheia de micro-regras possível. Mas na aplicação dessa doutrina (que foi inspirada previamente pelo deus, claro) é você quem dita as regras práticas, sempre sob a alcunha da vontade do deus-totó. É sábio também instituir uma autoridade cada vez maior para os gerentes de confiança (pastores, rabis, pais de santo) como intérpretes da sua vontade, quer dizer, do deus-totó, em detrimento da autonomia dos filiados.
V. Condenação para os não-filiados: obviamente, nenhum outro grupo econômico tem a possibilidade da salvação ou evolução no mundo espiritual (em contrafação à ideia do medo da condenação) além do seu. Todos os outros grupos automaticamente são servos do Darth Vader e jazem no mal. Mande os filiados se afastarem desses cultuadores de Darkseid, a não ser por motivos de tentarem angariar novos filiados.
VI. Toma-lá-dá-cá, a melhor técnica: Por último e não menos importante, para maximizar astronomicamente os lucros, é necessário criar uma relação direta entre adoração/benção. Quanto mais o consumidor filiado “adora”, mais ele recebe bençãos do deus-totó, numa relação estritamente perfeita. Adoração pode incluir pulos, gritos, ajoelhar-se onde estiver quatro vezes por dia numa direção específica, repetir orações, mas deve sempre incluir a adoração financeira. Essa relação vai incentivar o filiado a doar cada vez mais. E não thá imposto de renda PJ.
Talvez seja arrogante demais afirmar que só o meu Deus é verdadeiro e todos os demais são deus-totó. E é. Mas não sou eu que faço essa afirmação. Todo o problema com a liberdade, todas as milhares de denominações existem pelo simples fato de que em algum momento do passado, alguém preferiu escutar sua própria voz em detrimento da de Deus. Normalmente, por orgulho, por interesse econômico ou política, por desonestidade na propagação de lendas ou doutrinas sabidamente falsas. E levam à impressão de que talvez todos os deuses sejam totós. Porém, a Revelação verdadeira possui características próprias e transformadoras.
Em primeiro lugar, ela não está nem aí pra sua cultura. Independente de onde você veio, que língua fala, que coisas faz. Ela não vai se interpor em alguns aspectos culturais do inofensivos do indivíduo, como expressão artística, vestuário… mas quando tal prática for contrária à Lei, não vai rolar, seja lá o que for. Seu povo come carne humana? É melhor mudar o paladar. Seu povo não respeita os direitos humanos? Tá na hora de ser transformado.
Além disso, essa Revelação verdadeira não vai poder ser exatamente “entendida”. Embora Deus tenha conclamado seu povo ao arrependimento dizendo “venham, arrozoemos!” (Isaías 1:18), também é igualmente verdadeira a ideia de que as coisas espirituais só se discernem espiritualmente (1 Co 2:14). A Palavra deve ser vivida, deve transformar obrigatoriamente. Entrar e sair de uma reunião religiosa do mesmo jeito, não faz sentido. E para suprir essa falta, muitas denominações recorrem a algum tipo de espetáculo, de música, de grito, de luz, de sobrenatural. Como um show de rock. Mas como um ladrão, a vaziez vem rapidamente.
A Palavra é espada de dois gumes (Hb 4:12). Ela arrebenta tudo que está no caminho. Ela mostra que o povo ungido de Deus é na verdade o povo mais zuado do mundo em termos humanos. Que basicamente todos os grandes profetas do passado eram falhos. Que a salvação é disponível ao pior dos pecadores, porque não tem nada que você possa fazer para ser digno dela, nem nunca haverá. Ela mostra um Deus que ao invés de exigir glória subjugou-se ao homem. Virou bebê. Duvidou, passou fome… morreu. Sofreu humilhação infinita, e ainda perdoou seus algozes, nos ordenando que fizéssemos igual a fim de sermos chamados filhos dEle.
Você já parou pra pensar nesse Deus? O EU SOU, o pintor das galáxias, compositor da sinfonia do universo, mas cujo amor pela única raça caída é tão estupidamente surreal que nos causa um gemido inexprimível e reverente lá nas entranhas da nossa alma… a ponto de pensarmos: “Se isso não é real, quão real eu mesmo posso ser?”. O Deus que mesmo em sua ausência, está e é. Perfeito, infalível, mas capaz de descer na lama suja onde o ser humano está para resgatá-lo de seu pior inimigo: ele mesmo. É um tipo tão completo e sublime de resgate que só resta uma opção: ao invés de tentarmos transformar a deus num totó, queiramos nós sermos um totó! Um escravo, tão livre quanto um servo de Deus pode ser. Esteja aberto a ser transformado pela única coisa que salva, que faz você se perder de si mesmo para encontrar-se.




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