Espaço e tempo compartilhados
- O Granjeiro

- 20 de mai. de 2018
- 3 min de leitura

Hora do almoço numa cafeteria franqueada, dirigida para classes AB, na região nobre de Campinas. O fluxo é contínuo. Após ter transitado pelo espaço, desde a fila até os balcões, sento-me sozinha numa poltrona encostada às janelas. Porém, ao invés de encarar a rua, prefiro observar o ambiente e as pessoas que que lá estão durante aquele espaço de tempo.
Na fila, um grupo de três mulheres jovens, bonitas, bem vestidas – deveriam ser de algum escritório – falavam sobre rapazes com quem saíam. “Ele me disse que se eu priorizava meu trabalho ao invés da família, ele não era a pessoa pra casar comigo,” disse uma das moças, parecia ser a mais sentimental. As amigas faziam objeções, sinalizando que era uma desculpa mal elaborada do sujeito e que ele não a merecia.
Um grupo de alunos de um colégio de classe alta se aglomerava à minha frente, uns seis ou sete meninos tentando escolher seus pedidos. Os assuntos misturavam matérias escolares, jogos, vídeos da internet, enquanto eu apenas gostaria que eles se apressassem no caixa. Também lembrava que nessa idade eu teria como opção almoçar numa cafeteria tão cara e comer qualquer besteira. Pedi ajuda para alcançar um canudo, eles não me atenderam, estiquei o braço empurrando os garotos que tinham meu tamanho e, tendo conseguido o artefato, sentei-me. Havia mais umas meninas da mesma escola, umas três, sentadas na parte de fora. Aquela idade dos clubinhos separados por gênero.
Na mesa à minha frente sentava um grupo de quatro asiáticas, comunicando-se em seu idioma, o qual eu julguei ser mandarim, mas poderia facilmente estar errada. Com ar de bem sucedidas, pareciam bem entrosadas, riam e bebiam seus cafés. Senti certo desgosto pela barreira idiomática, impedindo-me de bisbilhotar a conversa. Meus olhos se dirigiram subitamente para um grupo de três rapazes de muito boa aparência, mas não consegui decifrar muito a respeito deles e logo perdi o interesse.
De repente, meus ouvidos captaram palavras aflitas ao meu lado direito. Um homem de traços japoneses, aparência jovem, com seu notebook aberto, se apertava ao celular com fone num diálogo tenso. “Você não entendeu! Eu quero perguntar! Deixe-me perguntar! Quero perguntar! Me ouça, me ouça!”, ele repetia e gaguejava. Foi possível compreender que se tratava da mulher com quem se relacionava. Aquele não parecia o melhor momento para a discussão, mas definitivamente, naquele espírito, ele não conseguiria cumprir seus afazeres. Tive pena dele, sem sequer saber se ele era culpado ou vítima – se é que se pode categorizar dessa forma.
Terminei meu salgado, minha bebida, retornei ao caixa para pegar uma sobremesa. Interagi com mulheres desconhecidas que discutiam sobre um sabor novo de café ser bom, ao qual afirmei que sim. Peguei o meu pacote e saí apressada porta afora. Celular sem bateria, poderia apenas imaginar o horário e tinha certeza que estava atrasada. Os rapazes bonitos andavam em passos lentos à minha frente. Beirando a impaciência, desviei deles e segui rapidamente.
Enquanto andava, refleti sobre o pouco tempo e espaço que dividi com aquelas pessoas – elas, de tantas histórias diferentes, eu com tantos enredos para mim mesma. Pensava em como aquele espaço que se aparenta fixo torna-se volátil pelo andar constante do tempo. Num segundo um entra e em outro sai, já não faz mais parte dali e o que se viveu ali, ali fica. Se a atmosfera compartilhada com as gentes desconhecidas serviriam para causar reflexões ou apenas para aumentar dados na memória imediata. Será que calada em meu passar pela loja, comunico-me contigo?
Ingrid Rainer




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