Crônica da Dona Florisbela
- O Granjeiro

- 15 de abr. de 2018
- 3 min de leitura

Se bem me lembro, era um domingo de manhã. Lucia estava em sua casa, alisando com preguiça o pelo do cachorro em seu colo. Também bebericava uns goles de chá vez ou outra, olhando a falta de movimento no bairro pacato pela janela, enquanto ainda estava acordando.
Estaria tudo tranquilo, não fosse uma movimentação repentina e curiosa, no mínimo irritante que estava tomando conta da rua. Um caminhão parou bem em frente à casa de Lucia, fazendo sombra e levando embora toda a sua vitamina D matinal. No mesmo momento, Snoop saiu correndo para o portão, e como um bom cachorro, ficou latindo.
Ainda era cedo demais em pleno final de semana para ir até lá fora, mas Lucia era muito curiosa. Além do mais, a casa em frente a sua já estava sem a placa de “vende-se” há algum tempo, então provavelmente seu novo vizinho ou vizinha tinha chegado. Será que era uma família? Será que eles também tinham cachorros? Ou crianças! Que tipo de música eles colocariam para tocar no churrasco de domingo?
Lucia foi trocar de roupa para ficar mais apresentável, e ajeitou os cabelos em um rabo-de-cavalo mal feito. Foi até o portão de sua casa, para “pegar Snoop” e parou ali, surpresa. O caminhão era menor do que ela imaginava, é verdade, mas estava repleto de flores. Vasos, potinhos, sementes... Parecia uma floricultura ambulante!
- Ah! Não, não, não, não, não! Muito cuidado com essas, ok? É muito importante – dizia uma senhora com seus 50 anos, liderando os homens na condução de suas plantinhas. Logo a dona olhou para Lucia e lhe deu um belo sorriso, acenando.
Lucia se assustou com a forma escandalosa da sua nova vizinha acenar e falar. Talvez ela fosse um pouco surda, e com certeza ela devia ter gatos! A senhora acompanhava cada movimento dos rapazes, às vezes corrigindo, às vezes congratulando.
“Meu Deus!” pensava Lucia, “não para de sair flor desse caminhão!”
Por que alguém teria tantas, mas tantas flores? Será que a dona trabalhava com alguma coisa que envolvia ornamentação? Ou talvez ela fosse de algum tipo de crença natural assim, sabe-se-lá. Lucia também se perguntava se algum dia, na sua vida amistosa de vizinhas, ela ganharia uma daquelas flores. Aliás, se olhasse ao redor, não tinha muita cor no seu jardim. Sua grama era verdinha, é verdade, mas era também o banheiro de Snoop.
Com certeza as flores da dona não ficavam só do lado de fora – acredite, eram MUITAS! – e depois de uma eternidade de segundos observando aquela cena, Lucia resolveu entrar em casa, com Snoop no colo, para não dar impressão de ser aquelas vizinhas que ficam na janela observando a vida alheia.
Enquanto esperava toda a movimentação cessar, pensava no que poderia dar a sua vizinha como “boas vindas”, e aproveitaria para elogiar as flores e esperar a dona responder alguma das suas curiosidades. Um bolo! Seria isso, alguns pedaços de bolo que ela mesma fez no dia anterior. Assim que o caminhão foi embora, Lucia estava saindo de sua casa com uma tappouer (lógico) cheia de bolo.
- Com licença... Eu vim lhe dar as boas vindas à vizinhança! Aceite esse presente, por favor – disse, educadamente, enquanto a velha deixava um vaso de barro ornamentado no chão e limpava as mãos no vestido outrora branco.
- Ó, mas que jovem gentil! Muito obrigada! Comprarei um lírio para comemorar esse dia. Ah! Me chamo Bela, mas todos me chamam de Florisbela - respondeu alegremente a senhora.
- Lucia – devolveu o sorriso.
Ela coçou a língua para falar algo das flores ao redor, mas estava estagnada olhando para tudo aquilo. Era insano! Lucia fez uma careta, tentando entender o que raios aquela velha estava fazendo. Seria ela meio maluquinha? Florisbela riu, colocou a mão no ombro de Lucia e pediu para que ela tentasse contar quantas flores podia ver.
- Isso é quase impossível, mas eu tenho certeza que são umas cem!
- Perdi algumas no caminho, outras dei de presente, mas sim, são muitas. Tantas que nem posso contar...! São mais de cem.
Dito isso, tirou uma rosa do vaso de barro e deu uma fungada nela.
- Você tem algo para agradecer, Lucia?
A mulher pensou por um instante, e concluiu que o dia tinha apenas começado, então não sabia responder bem a pergunta.
- Cada uma dessas flores que tenho em casa representa algo que sou grata nos últimos cinco anos. Minha vida está mais cheirosa, mais bonita, mais colorida e mais feliz. Nos dias maus, eu olho pra tudo isso e... Sei que vai tudo bem.
Com um grande e brilhante sorriso, Dona Florisbela lhe entregou a rosa.




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